EXPOSIÇÃO

Encontros com outro mundo1

Apresenta um conjunto de fotografias produzidas por seis artistas brasileiros contemporâneos - Caio Reisewitz, Débora Bolsoni, Élcio Rossini, Helena Martins Costa, Lucia Koch Rochelle Costi - cujas imagens foram compreendidas aqui como visões e representações de realidades distantes e intangíveis, de um mundo além da realidade imediata.

Aproximando-se das formas de representação do mundo espiritual codificadas na pintura, na fotografia e no cinema – cujos artifícios2 de iluminação, longa exposição, dupla exposição, desfocagem, distorção e ocultamento formalizaram a representação do invisível em nossa cultura, essa exposição aborda um tema recorrente, embora não tão explícito no mundo da arte.


Curadoria: Mario Ramiro
Artista plástico e professor


Local: Galeria de Arte da Fundação Ecarta (Av. João Pessoa, 943 – Porto Alegre).

Quando:
De 01/10 a 13/11.

Visitação: de terça a sexta, das 10h às 19h; sábado, das 10h às 20h; e domingo, das 10h às 18h.

Informações: 51 4009.2071


NOTA PÚBLICA
Repúdio à sanção
do Governo para
extinção das
fundações estaduais

Nome: 
E-mail: 
 
 
Neste sbado, 22/11, a galeria ecarta estar fechada para visitao
EXPOSIÇÃO ENCONTROS COM OUTRO MUNDO

Apesar de não ser restrita à fotografia, a representação de mundos e dimensões não associadas diretamente à nossa realidade concreta encontrou na linguagem fotográfica um dos seus mais criativos suportes. Primeiramente ao expandir os limites do mundo visível (pela chronofotografia, pelos raios X, pela fotografia astronômica e microfotografia) e, depois, pela hipótese de que a superfície de prata do filme fotográfico seria capaz de apreender as delicadas emanações das forças espirituais em movimento pelo nosso mundo. Considerada, inicialmente, um meio incapaz de sofrer alucinações, tal como se predispõe a mente humana, à fotografia foi atribuída a capacidade de registro científico dos fenômenos e acontecimentos manifestados no mundo visível e invisível. Por isso, quando o Espiritualismo Moderno, um movimento baseado na crença do contato com os espíritos dos mortos, se firmou na segunda metade do século XIX como um novo sistema de crenças, a fotografia serviu como uma das mais potentes ferramentas na “comprovação científica” dessa nova dimensão espiritual atingida pela cultura do Ocidente.

As influências desses pressupostos espiritualistas na arte do século XX se irradiaram para o campo da literatura, teatro, dança, cinema, artes plásticas, cinema e fotografia, marcando o retorno de uma visão transcedental do mundo desvinculada dos códigos hegemônicos instituídos pela Igreja católica sobre a dimensão espiritual.

Para esse projeto de exposição foram escolhidas imagens fotográficos que, muitas vezes, não representam diretamente a produção fotográfica de seus autores. As imagens de Lucia Koch e Rochelle Costi, por exemplo, foram emprestadas dos registros de suas instalações ambientais por se aproximarem, enquanto imagens, do nosso imaginário acerca das outras dimensões3 do espaço. As fotografias de Caio Reisewitz, Débora Bolsoni e Élcio Rossini fazem parte de uma produção paralela ao trabalho regular desses artistas, espécie de novas idéias que atravessam suas produções. Já o trabalho de Helena Martins Costa integra uma série fotográfica que a artista vem desenvolvendo com certa regularidade e que também se aproxima da visão evocada nesse projeto.

E paralelamente a esses trabalhos, a mostra apresenta ainda um pequeno acervo da coleção de Mario Ramiro sobre a Fotografia dos Espíritos no Brasil, supostos registros fotográficos de “espíritos” e outras manifestações transcedentais registradas em fotografias ao longo do século XX na cultura brasileira.

Artistas e suas obras


Do trabalho fotográfico de Caio Reisewitz escolhemos uma fotografia encontrada em sua pesquisa sobre o fotógrafo de origem alemã, Joachim (Joaquim) Reis, que viveu no Brasil entre 1914 e 1930. Reis teria deixado diversos registros fotográficos e anotações sobre a costa brasileira, como visto nessa foto, intitulada “Paupina” (Lagoa Limpa), de 1919. Ela integra um grupo de imagens relativas às “novas tentativas com o uso da fotografia” realizada pelo fotógrafo alemão e é cercada por uma atmosfera de mistério e contemplação. A posição dos corpos à frente da composição clássica da paisagem e da atmosfera luminosa, evoca um elemento impregnante nessa imagem que é o da suspensão e do silêncio.


O trabalho fotográfico de Débora Bolsoni para essa exposição foi impresso nas duas faces de um cartão, onde de um lado vemos um homem de costas caminhando por uma calçada de mosaicos, vestindo um longo manto branco. No verso do cartão o ambiente da cena parece ser o mesmo, embora parcialmente coberta por uma aplicação serigráfica semelhante aos bilhetes de loteria. Essa impressão sobre a imagem produz um ocultamento que nos induz a descobrir, como num jogo de premiações, o que se oculta por trás daquela mancha metálica quando raspada.

Élcio Rossini apresenta a imagem de uma de suas foto-performances onde o artista,como em outros de seus trabalhos, consegue a transformação dos materiais ordinários em elementos de força visual e performativa. Nessa montagem para a câmera o corpo, o espaço e a arquitetura dos materias se organizam como pura plasticidade sob uma iluminação tênue e misteriosa. Existe algo de humano nessa forma, embora aquele espaço não pareça ser desse mundo.

Helena Martins Costa vem realizando uma série fotográfica baseada na apropriação de fotografias que a artista vem encontrando ao longo de sua pesquisa. Na ampliação das imagens encontradas ocorre muitas vezes que aqueles corpos, normalmente vistos em pares ou em grupos, são literalmente decaptados pelo recorte fotográfico. No enquadramento dado às cópias as figuras tornam-se acéfalas, separadas brutalmente de suas identidades4. Na imagem ao lado algo também parece ocorrer como se no domínio do mundo dos sonhos. A névoa da paisagem parece levar os corpos femininos ao êxtase, espécie de vôo em terra.




Do trabalho de Lucia Koch foi escolhida uma imagem que registra uma de suas instalações, realizada em 2005, intitulada “Filtro para dois”. Nela a artista cria uma zona de filtragem entre duas pessoas que não conseguem se ver perfeitamente, identificando apenas os contornos etéreos da outra. O registro fotográfico desse trabalho apresenta um recorte fantasmático dos corpos num ambiente de realidade pouco identificável, separado por filtros de diferentes densidades. Objetos e espaço, corpos e iluminação se entrelaçam na constituição dessa imagem que fala do lugar do sujeito solitário.
Das fotografias de Rochelle Costi foi escolhido também um registro de uma instalação realizada por ela na Ilha da Pólvora, próxima a cidade de Porto Alegre, em 1996, como parte de um projeto comum com outros artistas intitulado Arte Construtora5. Nessa instalação a artista utiliza diversas peças de roupa encontradas pela ilha, posteriormente estendidas entre as árvores do local e acionadas dinamicamente pelo vento. O resultado dessa simples operação ficou registrado em diversas fotografias nas quais as figuras esvoaçantes sem corpos dominam a paisagem ao lado de uma ruína.




Notas

[1] “Encontros com o outro mundo” é o título de uma reportagem publicada pela grande imprensa brasileira sobre as aparições de um “espírito” num centro mediúnico na cidade de São Paulo. A publicação da revista Fatos e Fotos, de 1964, foi a primeira de uma série de outras publicações que se seguiram ao longo de meses nas páginas da revista Manchete, sobre as fotografias de supostas aparições do além materializadas em ambientes de experimentação no interior do Brasil. Essas reportagens trouxeram a público uma discussão pouco usual sobre a legitimidade do registro fotográfico e as muitas possibilidades de manipulação da imagem na construção de documentos ideológicos e registros visuais “livres da subjetividade humana”. Isso tornou pública a discussão do estatuto criativo da imagem fotográfica e de sua surpreendente capacidade de ativar a imaginação a partir do registro das coisas comuns do mundo.



[2] Arte, artifício, artinhas. Palestra de Vilém Flusser na Bienal Internacional de São Paulo, 1981.

[3] Na física, as dimensões são parâmetros utilizados para descrever os fenômenos observados. A física clássica descreve o espaço em três dimensões. A teoria da relatividade geral propõe uma geometria quadridimensional conhecida como espaço-tempo e teorias mais modernas sugerem a existência de dez ou onze dimensões. (Wiki_dimensão)

[4] Annateresa Fabris. Identidades virtuais. Belo Horizonte: UFMG, 2004.

[5] Arte Construtora, projeto em comum dos artistas Lucia Koch, Rochelle Costi, Élcio Rossini, Elaine Tedesco, Katia Prates, Nina Moraes, Fernando Limberger, Jimmy Leroy, Renato Heuser, Luisa Meyer, Marepe, com a participação de críticos e curadores de arte como Aracy Amaral, Felipe Cheimovic.
 
 

 Apoio:
Sinpro/RS - Sindicato dos Professores do RS

Fundação Cultural e Assistencial ECARTA
Av. João Pessoa, 943 - Porto Alegre - RS - Brasil - Fone: 51-4009.2970
© Copyright 2005 - 2011 Todos os direitos reservados (All Rights Reserved)