Lilith no espelho
curadoria Elaine Tedesco

A visitação ocorreu até 15 de maio de 2006
Local: Fundação ECARTA
Av. João Pessoa, 943 - Porto Alegre - RS
Lilith* no espelho

“A troca se fundamenta sobre o fato de algum de nós reconhecer em si aquilo que reconhece no outro (igual e diferente) e vice e versa, ao menos entre certos limites”. Alberto Melucci
NOTA PÚBLICA
Repúdio à sanção
do Governo para
extinção das
fundações estaduais

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Mirar-se no espelho é encontrar esquecimentos, desaparições e projeções. Ao reunir Téti Waldraff, Claudia Barbisan, Lizângela Torres, Marina Camargo, Jaqueline Carvalho e Juliana Niemeier nesta exposição, projeto sobre suas obras um olhar que as amplia e distorce. É como se estivesse vendo um corpo através de um espelho curvo.

A percepção sobre ações corporais cotidianas é o ponto de partida para a criação de suas propostas artísticas, mas as proximidades encerram-se aí. O corpo – sua imagem, forma, gestos, linguagem – é, nesta exposição, ultrapassado, coberto, costurado, fotografado, desconstruído, desajustado em diferentes abordagens.

No trabalho de Lizângela Torres o corpo é tratado como imagem, fotografado em aparição e desaparecimento. Uma seqüência de fotografias noturnas com o vulto de uma mulher em pé, no corredor de uma casa. Na montagem horizontal, sua imagem surge e desaparece, é o Assomo de Lizângela Torres, cuja aparição é a própria artista. Auto-retrato ou foto-performance? Pouco importa classificar. Suas fotografias são sempre carregadas de uma carga enigmática, as figuras estão em constante penumbra, em cenas noturnas e espaços indefinidos. Há, nelas, um clima de suspense. A artista propõe-nos a experiência da escuridão e pouco conseguimos ver da cena que está diante de nós.

É diante de muita luz que Jaqueline Carvalho elabora suas fotografias. Nas quais, o corpo fotografado nu torna-se desajustado, desconstruído, disponível para ser re-articulado, inventado. Jogo para desejar, trabalho de Jaqueline é um conjunto de cinco cubos revestidos por fotografias de partes do corpo de diferentes mulheres. “Distribuídos no chão à espera da participação do espectador, os cinco cubos sobrepostos um em cima do outro medem o tamanho de uma pessoa”. O rosto das mulheres é sempre o de Jaqueline, que parece transformada em outras, o jogo proposto entre a sua face e as combinações entre os corpos, cria mulheres possíveis, estranhas, deformadas, belas. A crítica ao desejo de tornar a própria imagem semelhante a do ídolo, da modelo, da artista, da boneca – é usada pela artista como argumento para pensar a imagem no cotidiano.

Distante, mas nem tanto da imagem, no processo de trabalho de Claudia Barbisan, a representação fragmenta o corpo e, ao multiplicar o excerto, o ultrapassa. Jardim do paraíso: nem tudo são flores, é a instalação que a artista está preparando para esta exposição. Na proposta, Claudia desdobra um de seus trabalhos eróticos, apresentados na exposição Que ser isto? (2005). Pequenas peças feitas com parafina, essências perfumadas, pêlos humanos e flores artificiais, vistas de longe, parecem coroas de flores. São medalhões com a forma de vulva no centro. Ironia, perfumaria e erotismo, Jardim do paraíso: nem tudo são flores é um conjunto de cem medalhões cheirosos, floridos e peludos – morenos, ruivos, loiros, grisalhos, castanhos. Um trabalho que conta com a colaboração de diversos amigos.

Gestos como cobrir, juntar, costurar e colar são trabalhados por Téti Waldraff, em uma série de ações repetitivas, nas quais, a artista cria assemblage como quem pinta. Bolas e bonecos de brinquedos afixados sobre skates e revestidos com flores de tecido, contas, lantejoulas e lycra são objetos que fazem parte da série Jardins Zoobotânicos, que Téti iniciou em 2005. A articulação entre: o farto uso de objetos de plástico coloridos provenientes da China, a preferência por motivos florais, a referência que a artista faz à pintura e as ironias em sua opção por títulos como: Os amores de galinha no jardim, Cavalo atolado em flor e Pato de kimono saindo da lagoa, fazem dessa série, vistosa e lúdica um conjunto complexo com referências da cultura popular, da pintura ingênua e das animações eletrônicas de nosso tempo.

Ultrapassar a linguagem escrita a partir de um sistema de desconstrução do uso dos signos gráficos, reutilizando-os em novas configurações, é parte das proposições de Marina Camargo. Seus cartazes, nomeados de Sentimentos Distraídos, têm como referência um manual de montagem e conserto de carros articulado com dicas para tratar sentimentos. Já A Grande Enciclopédia do Lar é um trabalho feito especialmente para essa exposição. Marina desenvolve, em dois desenhos, um jogo com a linguagem gráfica e a escrita. Num deles, dispõe sobre uma grade ortogonal algumas letras de nosso alfabeto; noutro, encontram-se fragmentos de uma trama composta por linhas, pontos e números. Ambas as proposições possuem traços, ordenações e, ao mesmo tempo, a disposição de elementos gráficos distribuídos de forma aparentemente aleatória.

Cobrir, ultrapassar, riscar e desajustar são também ações que constituem o processo de trabalho com a imagem do corpo nos desenhos de Juliana Niemeier. A artista vem desenvolvendo uma série de desenhos (sem título) iniciados há dois anos, por ocasião de seu projeto de graduação em Artes. Nesses trabalhos, o papel é tratado como coisa que se dobra, molha, borra, rasga e tinge. Depois dessa série de ações, Juliana passa a tracejar sobre a superfície figuras como esqueletos, caveiras, máscaras e, através do uso de carimbos, personagens femininos de histórias infantis. Juliana apresenta os desenhos na parede, deixando pequenas distâncias entre eles. Essas montagens criam narrativas nas quais os personagens parecem estar saltando de uma folha a outra, em situações de fuga ou em projeções indo de encontro a outros personagens.

Lilith no espelho na Fundação ECARTA, expõe aos visitantes diferentes olhares sobre a feminilidade contemporânea e apresenta-se como uma oportunidade para pensar-se o corpo, a imagem e o cotidiano.

* Feminino negativo, arquétipo das forças incontroláveis do instinto humano.

Curadoria
Elaine Tedesco - Março 2005
Artista plástica, Mestre em Poéticas Visuais

Fundação Cultural e Assistencial ECARTA
Av. João Pessoa, 943 - Porto Alegre - RS - Brasil - Fone: 51-4009.2970
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